Carta: Vou cumprir minha promessa


Planaltina Goiás, 10 de janeiro de 2010

Querida irmã Sofia...

Não sei bem como iniciar essa carta, pois minhas mãozinhas tremulas ainda não conseguem dizer tudo o que necessitam. De inicio quero agradecer a senhora por todos esses nove anos em que a única mãe e o único pai que conheci foram a senhora. Meus irmãozinhos foram os outros órfãos daí do orfanato e realmente não tenho muito do que reclamar, além das broncas que levei sem ter culpa.
Sabe irmã Sofia, eu sempre gostei muito da vida que tive ai, mas tem uma dúvida que não sai da minha cabeça. Queria muito saber da minha família de verdade, da mãe que me abandonou ai na porta do orfanato assim que nasci, do pai que nunca me procurou, ou se procurou, foi no lugar errado, dos irmãos e irmãs que eu posso ter e não saber. Adoraria ter uma irmã mais velha que pudesse me ensinar algumas coisas que infelizmente não posso perguntar a senhora, por ser muito rígida conosco, sei que a senhora não é rígida assim por querer e sim por necessidade, afinal são 314 crianças que dependem da educação transmitida ai.
Não sei ao certo quando irá receber e ler essa carta, mas gostaria que não se incomodasse comigo, não se preocupasse, pois eu estou bem e vou ficar melhor ainda quando souber de verdade quem é minha família.
Aqui nesta mesa de restaurante, olho as paredes sujas de carvão do churrasquinho que aqui servem, olho mais pra dentro e noto o dono que ainda não me viu sentada aqui na mesa e sei que logo irá me tirar daqui, preciso escrever rápido...
Tenho um único pedido a fazer, não deixe o Alfredo passar fome nem frio, cuide dele como se fosse seu próprio gato, a senhora nunca foi de muito amor com ele, mas sei que apesar dos pesares, a senhora simpatiza com ele, principalmente quando ele tira pra brincar com as folhas caídas das árvores do quintal.
Vou sentir saudades, muitas saudades da senhora, do Alfredo, do Serginho que em todos esses anos foi meu irmão de criação, do Fábio com as mágicas dele quando ia nos visitar, dos voluntários que nem sei o nome de todos, mas guardo a lembrança do rosto de cada um em minha mente, das festinhas com muita música e todas as crianças brincando no pátil, como eu gosto dessas festinhas!
Não sei como vou fazer para encontrar meus pais, mas não posso desistir agora, foi difícil despistar as irmãs daí do convento para fugir.
Irmã Sofia, queria muito que a senhora mostrasse essa carta ao Serginho, choro só de pensar que não ouvirei mais as histórias que ele me contava, apesar de ser mais velho que eu, via nele um amiguinho da mesma idade que eu, podia confiar nele para todos os meus momentos.
Serginho, aproveito uma carta só porque só tenho papel para uma. Queria te dizer que você sempre me ensinou a correr atrás dos meus sonhos, a tentar cumprir minhas promessas e uma delas eu fiz no meu aniversário deste ano, prometi a mim mesma, ao meu coração que iria encontrar minha família de verdade e agora tenho que cumprir, afinal, é meu coração que vai me cobrar.
Quero que lembre de mim sempre, assim como eu vou me lembrar de você por toda a minha vida, quero que sempre que estiver triste, lembre do abraço de urso que eu te dava e você me estralava todinha, como vou sentir falta desse abraço!
Bom, não posso me estender muito, o dono do restaurante acaba de me ver e está vindo em minha direção, na certa vai me fazer perguntas que não vou poder responder e certamente ele vai me mandar embora já que não posso pagar pelo almoço que as pessoas começam a chegar para comer.
Mande um beijo e um abraço bem apertado a todos os meninos e meninas daí, as irmãs que cuidaram de mim todo esse tempo e irmã Sofia, reze por mim, para que eu consiga cumprir a promessa que fiz ao meu coração. E agora faço mais uma promessa, quando eu crescer, me formar, tiver dinheiro o suficiente, voltarei ai no orfanato para visitar vocês e matar a saudade.

Um beijo imenso e carinhoso, Laura.